Espectros

Faz algum tempo que mantive-me calado. As atribuições e compromissos dos últimos dias têm tomado todo o tempo, de modo que mal pude ler meus livros. Quando caminho pela cidade nas direções onde sou requisitado tenho por passatempo observar.

Seja no metrô, nos ônibus, ou simplesmente caminhando pelas ruas, sempre me distraio observando as pessoas, contudo a maior parte delas aparentemente não percebe minha presença. Passam milhares de pessoas, centenas de mundo e juízos. Curiosamente passam dias antes que minha presença possa ser percebida por qualquer uma delas.

Todos se encontram ocupados e centrados em seus próprios pontos de vista, e tenho até uma tese para explicar esses acontecimentos. Essas pessoas que encontramos todos os dias não existem de verdade. São como figurinistas, contratados apenas para serem cenário de uma peça, na realidade não passam de espectros. Apenas formas que podem ser observadas mas não existem, não têm consciência.

Fantasmas que populam nosso mundo, apenas preenchendo os espaços sem realmente estarem lá. Imagens que não te percebem, e, na rara hipótese de ter algum contato com eles, rapidamente se esquecerão de sua presença. O mundo é um local solitária, com apenas meia dúzia de pessoas a vagar por ele, e, milhões de espectros a preencher o espaço deixado.

Depois de alguns momentos percebendo esse mundo fantasmagórico, fui tomado de uma tenebrosa epifania. Não são os outros os fantasmas, o espectro sou eu. Não há vivalma que recorde minha passagem, e que perceba minha presença, porque não podem realmente ver que estou com eles. Simplesmente os vejo, mas não podem me ver, estamos em realidades distintas.

Estou recluso às minhas percepções e atento ao momento. Quando observo, no percurso dos caminhos, onde ocorrem esses estranhos fenômenos, e em diversas parcelas do dia, observo que no local de onde observo, apenas poucos estão. Boa parte do tempo, se passa no interior de nossas consciências, ignorando os estímulos externos. As pessoas passam boa parte de suas vidas sem se dar conta de que estão vivendo. Observo sem ser observado.

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