Trata-se de uma ideia. Uma ideia raramente é boa ou ruim, ela chega furtivamente, sem qualquer aviso, para em pouco tempo dominar e preencher toda sua mente.
Pouco a pouco, você se pega pensando nela mais do que pode controlar, e essa ideia acaba por se tornar mais importante que as ideias habituais. Grandes escritores já me avisaram do perigo que trazem as ideias, porem acredito que não se pode matá-las. A simples tentativa é crime contra a natureza do Universo.
Explico, homens matam outros homens, propositadamente, ou ainda acidentalmente, contudo, não devemos temer os assassinos, ainda mais aqueles que não são habituais. Na verdade, perigosos são aqueles que buscam assassinar as ideias. Quando matam homens, estes o fazem por suas ideias, o que os torna verdadeiros assassinos em série, pois as ideias não habitam um único homem.
Por tal razão temo pessoas que queimam livros. Os livros encerram em si ideias, e mais que isso, a vida de um homem, ou muitos homens. Muitas vezes destruir determinado livro pode ser pior que matar o homem que o escreveu, pois assim se destrói o trabalho de sua vida, ou ainda o trabalho de muitas vidas.
Assim quem queima livros, desrespeita o trabalho de um homem, que muitas vezes, para este, tem mais valor que sua vida, e mais, demonstra que não tem respeito pelo ser dessa pessoa. Há casos de livros que encerram personalidades inteiras. Esses carrascos cometem assassinos de imortais, e, portanto, diante de homens, terão um desprezo vil. Creio que não titubeariam em ceifar milhares de vidas humanas tão facilmente quanto queimam as páginas que encerram verdadeiras almas e mundos.
Assim, não me atrevo a tentar esquecer esta ideia que me atormenta. Certas pessoas são escolhidas para receber das musas, da ciência, ou seja lá do que for, certas ideias, ou ainda historias e inovações. Portanto, tentar sufocar uma ideia, assim em seu nascedouro pode significar o aborto de algo necessário, de algo que pode transformar pessoas.
Se você abortar uma ideia poderá privar uma pessoa da redenção, uma história de seu corpo, enfim, tenha certeza que cometerá um sacrilégio contra a cultura humana.
Infelizmente talvez esteja sendo muito pretensioso em relação a esta ideia que me habita, pois creio que seja daquelas banais, ordinárias. Ainda estas devem permanecer, e, caros leitores, com vocês compartilho caso seja de alguma serventia. Pois para mim, apenas sussurra, quase em tom de zombaria.
Ainda não está completamente formada, e somente neste momento a transcrevo em palavras, creio que seja uma fome, mas uma fome que não cessa com o alimentar do corpo, e a alma já está fatigada deste alimento vil que encontra, de modo que precisamos de novas formas de nos saciar.
Já foi. Quem sabe isso ainda gere uma epopeia. Pelo menos agora que cumpri minha função (por enquanto) posso dormir tranquilo.
§ Gladius
