O medo é algo que me intriga profundamente. Creio que este foi enfiado em nossas entranhas, no âmago de nossos instintos. É nosso elo mais forte e vivo com nossa natureza animal.
Algumas vezes basta observar aquele pânico irracional, irreal que algumas pessoas desenvolvem por algumas coisas, inofensivas. (Concedo aqui um pouco, até potencialmente perigosas em algumas circunstâncias, mas há situações que geram horror antes mesmo de qualquer perigo concreto.)
Diria que algo tão natural, tão humano, tão animal, é muito mais antiga que nossa humilde espécie, que apenas engatinha nas veredas deste imenso latifúndio. TODOS os Homens têm medo do escuro.
Basta retirar algumas de nossas quimeras e ilusões, que as pessoas se lembram que existe algo aí fora para se temer. Existe algo à nossa espreita nas trevas, esperando que a lenha de nossa luz se apague. Basta que falhe nossa humilde centelha, como naquele dia em que ficamos sem energia elétrica, para que as pessoas fiquem mais atemorizadas.
Esse medo intrínseco, talvez tenha sido imprescindível para tornar alertas nossos sentidos, e ágeis nossos reflexos, para assim, garantir a dinastia das pedras, permitindo que o DNA de nossos ancestrais se perpetuasse.
O custo da manutenção de nossa espécie foi alto. As pessoas temem-se reciprocamente, e o medo as impede de se aproximarem, pois os predadores estão à sua espreita. Basta um pouco de segurança para que o sentimento de terror seja completo.
Pavorosa é nossa civilização, o custo para manter nossas vidas, ironicamente, foi a vida em sua essência. Para manter a vida, foi necessário escondê-la em um buraco tão fundo e tão escuro, que esta perdeu o sentido, a graça, e até mesmo o nome, transfigurando-se no simples sobreviver.
Pequenos Homens, temam, acima de tudo seus medos, que alimentam-se de suas vidas. Protegem da violência arrebatadora, mas dilaceram-na, pedaço por pedaço, naco por naco, até que apenas sobrem seres assustados, medonhos, simulacros, sombra do que poderíamos ter sido.
Quando estiver só, em um local escuro, saiba que à sua espreita, naquelas sombras tenebrosas, te observa sua morte, esperando apenas um vacilo para com suas presas sangrentas cravar tua carne suculenta.
Não tema, apenas a respeite, pois cedo ou tarde, cederá a seus encantos.
O Lobo.
