Respeitável público. Após esta involuntária e tão grave pausa, decreto o manifesto primeiro da alma. Que a ultrarrealidade seja enfim, alcançada, e observada ao final desta revolução. Sejamos sinceros, afinal. Chegou a hora de enfrentar a derradeira verdade. Não há realidade.
Não se iluda, caro mortal. Tome tento que finito é mundo, cerrado em tua covarde mente. Com tua morte, morrerá todo o universo. Agarre, afague esses torrões de terra, argumentando com a palavra dura, com a pedra fria atente contra esta verdade, mas, por fim, aceite e perceba que acaricia suas próprias convicções e enganos.
O princípio e o fim do universo estão encarcerados em seu corpo, e hão de perecer com teu fim. Explico: o universo nasceu contigo. Passou a existir no momento, não que você nasceu, mas em que adquiriu sua consciência.
A percepção é a cor do mundo. Sua terra cavada, palmo a palmo com seu tato tímido. Nossos pulmões trazem a música da existência. Sobre pressupostos humanos se sustenta a frágil construção.
Existem países e deuses imaginários. Criados pela mente mais febril. Em tudo semelhantes Àquilo que nossos pés podem pisar.
Há sabores além de sua língua e cores muitas que olhos viciados não podem ver.
Todo o espectro apenas é visto pelo espírito.
O Universo é infinito, e aprisionado em seu corpo. A realidade é limitada pelas borradas janelas que a carne fornece. Apenas no espírito existem as impressões, e somente depois delas existe verdade.
Além das grosseiras visões, e dos ecos surdos dos gritos dos mortos que andam pela terra. Sobre os corpos putrefatos e depois de assaltados os fortes e castelos de areias repousa uma verdade. Todo o resto, são apenas sulcos, que parecem algo significar, sonhos, crenças e toda a humanidade suavemente destruída pelos ventos que se perdem nos mares, que preenchem um vazio.
-Arlequim-
