Chegarão dias em que automóveis voarão.

Recentemente realizei uma viagem, de avião. Há mais de 5 anos eu não voava. Havia esquecido completamente os prazeres e incômodos dessa rápida jornada. Demoramos mais com deslocamentos no aeroporto, e na espera do embarque do que no vôo propriamente dito. Foi uma viagem rápida, apenas uma hora no ar. Mas, além da bela vista panorâmica, e do incômodo auditivo, algumas indagações invadiram minha mente.

Comecei a imaginar qual seria a razão do medo de voar, uma vez que se trata de uma habilidade fantástica do homem. Uma das descobertas que colocam um pouco de esperança na capacidade humana de transcender suas capacidades.

Acredito que neste ponto, na transcendência do homem, se encontra o ponto que atemoriza muitos mortais.

Inicialmente, há claro a separação física de nosso corpo e Gaia, a terra, que literalmente gerou os elementos de nosso corpo. Nossa natureza é terrena, porém nossa alma, aprisionada neste corpo pétreo, anseia os ares.

Quando voamos, desde o início observamos a imponência das máquinas voadoras. Mesmo as pequenas impõe seu respeito. Representam a indignação e a inquietação humana com a sina de animais terrestres. Não podemos, é claro, dominar a natureza, mas esse tipo de máquina demonstra a boa luta pelo desenvolvimento.

Quando atingimos o céu, temos uma visão mais ampla de nossa  terra, e do que nela representamos. Nossa casa, nossa cidade, tudo some diante da imensidão do mundo e do universo. Por um certo momento, desaparecemos da face da terra, e, o que é pior, a terra continua lá, imponente. Quando chegamos aos céus, temos imediata consciência de quão efêmera é nossa existência. De nossa insignificância. Podemos alcançar os céus, mas lá, vemos que não significamos nada e que não há nenhum deus a nos esperar.

Talvez o desalento, e esses símbolos sentidos inconscientemente, gerem o medo da solidão nas pessoas. O medo de voar, além do medo da morte, é o terror de cheirar a aniquilação gerada pelo vôo.  Nossa existência é suspensa por alguns instantes. E o mundo ainda gira. As nuvens estão lá, impassíveis diante de nossa insignificância. Enquanto o vôo representa um pequeno salto em nossas capacidades, também demonstra o quão pequenos ainda somos.

Creio que a carga simbólica de transcendência também assuste um pouco, pois o vôo, o transgredir dos limites impostos pela natureza, afeta a nós pobres macacos tão amestrados em determinadas práticas. Pelo menos conseguimos desenvolver asas. Pelo menos ainda resta uma esperança, do medo, das tragédias, da má utilização do poder de voar. A de que é possível ultrapassar limites. E que voe a águia, sempre além.

A inquietação prevalecerá.

–Gladius

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