Andei ouvindo diversas discussões a respeito do machismo, feminismo, e muitas delas embasadas em alguns conceitos equivocados. Antes de mais nada, é necessário observar a diferença que existe entre gênero e o sexo.
Boa parte da diferenciação e da desigualdade dos sexos, não passa de diferenciação construída nas relações de gênero.
Há um tipo que preenche o gênero masculino, e outro feminino. Estanques. São preenchidos por diversos códigos, de vestimenta, conduta, com deveres, direitos e obrigações diferentes, sob o ponto de vista moral.
Por serem códigos morais de conduta, estão inseridos fundo na mente das pessoas e muitos os defendem como se fossem Leis fundamentais da sociabilidade humana. Seu desrespeito acarreta muitas vezes exclusão e marginalização.
Recentemente Laerte assumiu seu travestismo. O mais interessante dessa atitude foi a contestação política que tal posição adotou, tendo em vista que ousou transitar livremente entre os gêneros, abrindo mão de códigos que deveria seguir, tendo em vista seu sexo.
Esses códigos restringem as possibilidades das pessoas, homens e mulheres. Diz-se que nossa sociedade é machista, pois essas normas legam predominantemente aos homens a função de dominação, e à mulher de submissão. Contudo, tais prescrições não são absolutas.
Para muitas pessoas essas normas são excelentes, pois refletem o tipo de pessoas que almejam ser. (seja pelo desígnio próprio, ou ainda pela total entregue de seu ser ao clamor social.) Para muitas, muitas, outras, apenas restringem seu potencial.
Quando se sedimentam os conceitos de que as mulheres tomam decisões de modo emocional, e os homens de modo racional, e portanto homens seriam melhores líderes, surge um forte argumento da inferioridade da liderança feminina.
Outra faceta desses códigos é a obrigação que cabe ao homem de pagar as contas da mulher, de aproximar-se caso tenha interesse, e de usar azul e nunca o rosa. (São as concepções do código em sua acepção mais radical). Surgem também as obrigações que os machos têm, e caso descumpram, têm sua masculinidade questionada. Regras machistas que também prejudicam os homens que não desejam se submeter a esses códigos.
Já as mulheres, têm sua liberdade sexual restringida, pois caso desobedeçam os ideais de pureza, e tomem alguma iniciativa, ou em alguns casos simplesmente sintam desejo, logo são tomadas por putas.
Alcunha que vem rapidamente de outras mulheres, já dominadas pelos códigos de gênero a que se submetem. Estas mesmas ficam temerosas com o feminismo, quando questiona algumas regras já interiorizadas como naturais.
Esse papel, legado às mulheres as restringe profissionalmente, pois o alegado de descontrole “emocional” ao decidir, dificulta que consigam atingir cargos mais altos.
Assim, diz-se machista a sociedade atual, mas oprimidos pelos códigos não são somente as mulheres, e não são todas elas, mas sim pessoas, homens e mulheres, que não se encaixam nos códigos estabelecidos como corretos para cada gênero.
Há mulheres que estão confortáveis, com salários satisfatórios e que gostam dos “agrados” que recebem apenas por que são mulheres, estas se assustam e não entendem o porquê da indignação de outras.
Tais agrados, como pagar uma conta, em função apenas do gênero, considero verdadeira ofensa à pessoa da mulher. Um pagamento desses é o reconhecimento da mulher como inferior aos homens. É a consequência imediata de sua fragilidade. Diferente é pagar uma conta por estima, seja por um amigo ou amiga. Estimo a pessoa, e não seu sexo. Diferente é reconhecer a mulher como pessoa e não como fêmea.
Feitas essas considerações, façamos agora uma visita ao mundo jurídico. As leis refletem, meio mal, mas refletem as interações sociais. Historicamente vem ocorrendo uma mudança no caráter das leis, pois as determinações de conduta não são absolutos no decorrer do tempo, elas variam.
Muitas pessoas ao desafiar o código, acabam por inová-lo, e criar novos rótulos e novas categorias. Hoje há mais liberdade que há 30 anos, e em 30 anos, espero que minhas ideias sejam consideradas até mesmo reacionárias.
As leis apontam essa evolução, e nossa Constituição determina direitos e deveres iguais a homens e mulheres, contudo, há leis que ainda discriminam os sexos. Menos que há alguns anos, mas ainda assim existe diferença de tratamento.
Registro algumas prescrições injustas em favor das mulheres, como a inexigência do serviço militar, o menor tempo de aposentadoria e até mesmo a licença maternidade.
Sim, em prol da igualdade, os homens também deveriam ter uma licença paternidade maior, seja para auxiliar a mulher em sua recuperação do parto, como também para diminuir as diferenças existentes nos contratos de trabalho.
A licença maternidade mais extensa que a do homem torna a mulher menos atrativa ao empregador, pois as despesas que ele tem com a empregada é maior que com um empregado. Objetivamente é um critério que beneficia a escolha de um homem para determinado cargo.
Esse é um exemplo de que a diferenciação dos direitos prejudica ambos os lados, tanto o pai que tem pouco tempo com o filho como a mulher que tem sua carreira profissional dificultada.
Leis como a “Maria da Penha”, tratam de outros tipos de diferenciação. É uma discriminação superficial, pois para a igualdade não basta que sejam fixados direitos e deveres iguais, mas que estes sejam proporcionais e as diferenças respeitadas. (Diferenças inerentes às pessoas e aos gêneros e não as construídas socialmente pelos códigos de conduta.) Assim, uma lei que diferencia pode estar garantindo a igualdade.
Igualdade é tratar os iguais igualmente e os desiguais de modo desigual, na medida de suas desigualdades.
Atualmente a Lei ainda não é justa, e não há direitos iguais, mas espero que caminhe nesse sentido, e mais, que as pessoas percebam que quanto menores as restrições dos códigos de gênero e maior a liberdade das pessoas, mais benéfico será, pois mais gente poderá exercer seu potencial.
Gladius.

André Franciscato Paggi
/ 17 de maio de 2011Gostei muito de alguns textos seus que lí. Achei seu blog acidentalmente a partir de um comentario seu feito no http://www.deldebbio.com.br. Muito bom mesmo! Sou estudante do ensino médio e espero algum dia ter esta sua inteligência. Parabéns !
Mary Cramer Sageturema
/ 20 de janeiro de 2012Introduzir desde cedo nas mentes dos jovens a igualdade, de modo que levem consigo este aprendizado e convivência com os demais.