Capital

Ontem retornei à Capital. Um sentimento interessante embriagou minhas entranhas, pois tenho vivido nesta cidade há cinco anos, e, cruzo ruas, fachadas, e esquinas que conheço há tempos. Cresci em companhia de ótimos pedaços de pedra, e estes se desenvolveram comigo.

Tenho a sincera impressão de pertencer a esta cidade, que me recebe com seus arranha-céus e ares poluídos. Há muito tempo eu não ficava tanto tempo longe daqui, mas, em um mês de férias, de volta à minha cidade natal, tenho a impressão de que há mais memórias, lembranças mais vivas nestas ruas. Não sei mais onde fica minha casa.

Uma certa tristeza, de abandonar o ócio, que não consumiu meu tempo vago, para dizer realmente a verdade. Mas a rotina novamente se impõe. À labuta.

- Gladius

Manifestos da Alma

Respeitável público. Venho lhes informar que a Grande Autoridade me incumbiu de revelar aos senhores alguns segredos guardados nos abismos das almas. Não se apavorem, meus pequenos, toda alma comporta em suas profundezas as mesmas intenções, e queimam pelos desejos cravados na essência do Homem.

Sem mais delongas, trarei holofotes sobre meu objetivo diante de tão seleto e especial grupo de ouvintes. As almas clamam pela derrocada da carne. O império da carne está para ruir, abrindo espaço para todo tipo de quimera carnívora a devorar a vil existência material, permitindo o florescimento, adubado pela carne putrefata, da verdadeira Vontade que há nos corações humanos. Sem mais, apreciem as revoluções, e acautelem-se contra os motins internos.

-Arlequim-

Almas Gêmeas

Curiosa é a ideia de que existem almas gêmeas, ou seja, uma pessoa que te completaria, seria seu par ideal. Não quero adentrar em algumas dificuldades advindas dessa crença, e eventualmente sua implicação em culturas não monogâmicas.

A verdadeira irmandade dos homens pode sim ser colhida de seus espíritos, de modo que poderia chamar de alma gêmea aquela alma que compartilha com a sua algumas características essenciais. Verdadeiros princípios que tornam essas almas similares e mutuamente respeitáveis.

Me explicarei melhor. Há um número limitado de tipos humanos. Pessoas de determinados tipos conseguem reconhecer seus pares e familiarizar-se facilmente com eles. Contudo há tipos mais frequentes que outros, de modo que os desafortunados de espécimes mais raros tendem a ser mais solitários, contudo também quanto mais rarefeita a incidência, maior a irmandade de dois membros dessa classe.

Claro que as pessoas não são facilmente definíveis, que cada pessoa poderá conter em sua alma a essência de diversas espécies, contudo as características mais vulgares geram menos irmandade e confidência que aqueloutras mais profundas e especiais.

Quando nos aprofundamos na essência de uma pessoa, buscando algumas de suas características cravadas em seu âmago, e observamos que esta compartilha dessa peça fundamental, imediatamente observamos o fenômeno da irmandade de almas.

Tal efeito pode ser observado nos mais diversos agrupamentos humanos. Quando as pessoas encontram algumas características com as quais se identificam, temos também identificação em outras pessoas que comportem tais elementos. Fácil encontrar certa semelhança em aspectos superficiais de nossa existência, como por exemplo alguns gostos musicais, literários, ou ainda esportivos.

Contudo fácil dizer que a sensação de proximidade é apenas ilusória, não se tratando verdadeiramente de uma alma gêmea, mesmo que exista aquele sentimento de simpatia. Os elementos escolhidos para decidir quem são aqueles que podem ser considerados seus irmãos, muitas vezes são superficiais, e não alcançam o âmago de seu companheiro, tratando apenas de aspectos externos de sua personalidade.

Antes de poder encontrar uma alma gêmea, é necessário que você se encontre. Saiba quais são os elementos constitutivos de seu ser, e mais, consiga descobrir outro ser que compartilhe tão raros elementos. Infelizmente, aqueles que elegem apenas aspectos externos e superficiais como representantes de suas personalidade encontram diversos semelhantes, contudo o laço que os une é fragilíssimo.

Ao passo que aqueles que buscam conhecer o cerne elemental de sua existência, acabam encontrando poucos homens com igual disposição de caráter. Contudo, quando estes se encontram, imediatamente reconhecem na fronte do nunca antes visto um possível irmão.

Não digo que é um fenômeno único, contudo não é vulgar nem comum. Muitas pessoas que tiveram a infelicidade de encontrar-se consigo mesmas não puderam encontrar um irmão de alma. Outros têm melhor sorte, pois conhecem-se a si mesmos e ainda outros semelhantes.

Posso afirmar que já conheci algumas pessoas que compartilham alguns aspectos de minha alma. Outras poucas nas quais poderia me considerar plenamente representado como membro da humanidade. Infelizmente ainda não encontrei O elemento essencial da alma humana, e desconfio que talvez quando este é contemplado possa se observar presente em todas as almas humanas, e, com isso, a irmandade de todos os homens. Talvez esse tenha sido o caminho trilhado pelos mais sábio entre nós.

Por mais bela que seja tal ideia, ainda não consegui escavar desse modo as catacumbas da existência humana, ainda observando as diversas pessoas existentes como membras de espécies distintas.

O Lobo deve andar em matilhas, contudo intrínseca a essa palavra, que até poderia indicar uma convivência social do Lobo, que este apenas se aceita a companhia de outros lobos, preferindo o isolamento à companhia de outras espécies.

In memorian.

O Lobo.

Espectros

Faz algum tempo que mantive-me calado. As atribuições e compromissos dos últimos dias têm tomado todo o tempo, de modo que mal pude ler meus livros. Quando caminho pela cidade nas direções onde sou requisitado tenho por passatempo observar.

Seja no metrô, nos ônibus, ou simplesmente caminhando pelas ruas, sempre me distraio observando as pessoas, contudo a maior parte delas aparentemente não percebe minha presença. Passam milhares de pessoas, centenas de mundo e juízos. Curiosamente passam dias antes que minha presença possa ser percebida por qualquer uma delas.

Todos se encontram ocupados e centrados em seus próprios pontos de vista, e tenho até uma tese para explicar esses acontecimentos. Essas pessoas que encontramos todos os dias não existem de verdade. São como figurinistas, contratados apenas para serem cenário de uma peça, na realidade não passam de espectros. Apenas formas que podem ser observadas mas não existem, não têm consciência.

Fantasmas que populam nosso mundo, apenas preenchendo os espaços sem realmente estarem lá. Imagens que não te percebem, e, na rara hipótese de ter algum contato com eles, rapidamente se esquecerão de sua presença. O mundo é um local solitária, com apenas meia dúzia de pessoas a vagar por ele, e, milhões de espectros a preencher o espaço deixado.

Depois de alguns momentos percebendo esse mundo fantasmagórico, fui tomado de uma tenebrosa epifania. Não são os outros os fantasmas, o espectro sou eu. Não há vivalma que recorde minha passagem, e que perceba minha presença, porque não podem realmente ver que estou com eles. Simplesmente os vejo, mas não podem me ver, estamos em realidades distintas.

Estou recluso às minhas percepções e atento ao momento. Quando observo, no percurso dos caminhos, onde ocorrem esses estranhos fenômenos, e em diversas parcelas do dia, observo que no local de onde observo, apenas poucos estão. Boa parte do tempo, se passa no interior de nossas consciências, ignorando os estímulos externos. As pessoas passam boa parte de suas vidas sem se dar conta de que estão vivendo. Observo sem ser observado.

<< Translobo >>

Impotência

Algumas vezes certo sopro poético arrebata meus sentimentos e sentidos, e tenho uma pequena sensação apoteótica da vida. Pequenos momentos em que podemos perceber a rara beleza de uma efêmera flor, ou ainda a luminosidade única, e, é bom também frisar, instantânea de um sorriso recém admirado.

Nessas ocasiões sinto-me mais poeta. Contudo, a pena torna-se deveras pesada, e não corresponde aos movimentos de minha alma, de modo que toda aquela impressão e sentimento, a tormentar e transcender os sentidos, torna-se morta, quase abjeta, depois de escrita e descrita em frias palavras.

Que ofício maldito escolheram os pobres poetas, transformar as luzes e sabores do mundo em palavras saborosas ao paladar e ao ouvir, ao falar e ao degustar. Contudo sou apenas um mero escritor, de palavras vazias e insossas. Grandes imagens, retratos da eternidade gostaria de transcrever, contudo apenas cores opacas, sem qualquer brilho ou beleza.

Como poderiam existir palavras, cunhadas por jovens mortais, para descrever um eterno momento, que, explicado, já contraria sua própria essência, descrito, torna-se passado, assim, torna-se finito, e encontra nesse casulo de letras, seu último sepulcro.

Canto as beleza do mundo de forma grotesca. Praticamente ofendo a natureza com um simples protótipo esquelético da realeza das formas. Assassino a divindade daqueles momentos únicos, torno-os vulgares, banais e simplesmente ocos. Emparedo certas imagens fazendo perecer toda vitalidade, pois faltam-me frases as frases suaves, uma bonita métrica, ou qualquer coisa que me faça merecer a alcunha de poeta.

¨Flautista

Amor

Certo dia estava a ler Nelson Rodrigues, quando sou ferozmente atingido por sua contundente tese, a de que os problemas do mundo decorrem da simples falta de amor.

Ideia interessante essa trazida pelo nobre dramaturgo, pois associa desde os males da desigualdade e da miséria até as doenças crônicas e virulentas à falta de amor.

O ponto mais chocante, é a afirmação de que o mundo se ressente daqueles que amam. Nossa sociedade necessariamente odeia todo aquele que ama, e pune tal ‘crime’ com pena não mais branda que a morte.

Como exemplos de seres que amaram, e, em troca, receberam o devido tratamento humano, Jesus, Gandhi, Martin Luther King, entre outros.

Bastaria alguém fazer parecer que ama, para que toda a sociedade busque caçar e aniquilar este violador dos princípios que regem a sociedade humana.

Diante desses fatos, observo entristecido a maneira como escolhemos tratar nossos semelhantes. Como poderia ser salutar o ódio carregado. O homem tem um severo predador em sua busca pela felicidade e liberdade: Os outros homens.

§ Gladius

Autobiografia

Não há maior pânico que aquele causado pela mais incisiva das perguntas :

Quem é você?

Há muitos, a primeira coisa que ocorre é um nome. Um nome e uma imagem no espelho, ou se preferir um pequeno amontado de carne

Alguns incautos rapidamente responderiam que são advogados, engenheiros, técnicos ou músicos. Infelizmente tais palavras remetem apenas a um ofício. Poucas pessoas podem ser reduzidas a seus ofícios, pois estes são lentes que revelam uma breve silhueta de sua alma, nada além de uma sombra.

Trabalhos podem ser uma imagem de sua personalidade, toda ela ou ainda a antítese da mesma. Mas você não é seu ofício, este é apenas algo que você faz, alguns com verdadeiro gosto.

Existem aqueles que se definem por seus gostos ou práticas fora de seus trabalhos. Mas incorrem nos mesmos erros dos primeiros, se definem por atividades.

Ações levam, quiçá, a uma compreensão melhor de sua personalidade que uma imagem, um nome, ou ainda um ofício. Talvez o ofício diga mais que as outras coisas anteriormente citadas, contudo, pare e medite um instante.

Já meditou? Espero que suas imagens mentais tenham atingido aqueles momentos em que está com seus colegas de trabalho, com diversos amigos de infância, com uma pessoa especial, e, finalmente, aquele momento em que está sozinho.

Raras pessoas conseguem manter-se constantes diante de tão variados ambientes. Como poderiam as ações de uma pessoa, que age de modos diferentes em diversos locais, definir uma personalidade.

Surge uma ideia para tal definição, e delimitação, talvez princípios, que norteiam a vida, ações e sentimentos de alguém. Diante dessa ideia, sugiro ponha-se só no silêncio. Há alguma disposição em seu espírito? Vontade, desejo? Quem é você na solidão, é uma boa companhia?

Te desafio, leitor incauto, a juntar os cacos espalhados pelas veredas deste mundo de sua história e de suas ações para mostrar o reflexo de sua personalidade e de seu ser, e, mesmo depois de uma vida de esforços, tenho certeza, apenas verei uma imagem deformada da realidade.

Voltarei ao tema principal, a minha personalidade. Algumas palavras que escrevo, não faço por vontade, desejo, ou ambição. Trata-se de verdadeira obrigação, determinada por forças estranhas e maiores que os homens.

Há no Universo um número restrito de ideias, assim como há de estrelas. Gigantesco esse número, mas mesmo assim, restrito. Essas ideias fundamentam a existência do Universo, e o explicam. As pessoas trazem dentro de si lentes, fragmentos que permitem que elas contemplem parte dessas antiguidades. No fim das contas, percebe-se que mesmo sob descrições diferentes, a ideia acaba sendo unívoca.

Assim, diante das parcas limitações que consigo encontrar para meu caráter, para minha pessoa, prefiro trazer aquela ideia que me foi incumbido transmitir a este mundo.

Observo-a, apalpo-a, e vejo que não se trata de uma ideia nova, mas sim de algo comum e corriqueiro. Releio minhas palavras, e sinto que realizo o plágio de escritores já esquecidos.

Faço compras, me alimento e debato, como outros já fizeram antes de mim, e, quando a imagem de meus traços, fenecerem, e a última linha por mim se apagar, outros tornarão a fazer, com certo sentimento de originalidade.

Sou um Homem. Sou todos os homens deste mundo. Sou todas as pessoas, porque sou uma das pessoas. Trago a ideia, e não consigo me diferenciar dela.

Quando escrevo e me descrevo, estou traçando um perfil da própria humanidade. A questão é que observo a ideia original, através do prisma vítreo que me foi concedido. Não importa a deformidade, se houvesse tempo suficiente, para agir das maneiras possíveis, seria impossível separar minha essência das outras existentes, ou que ainda existirão.

‘O um Homem’

Cinismo

Esta noite fui ao teatro. Há momentos em que a apoteose te faz perder a identidade.

Uma onda de cinismo tomava conta de minhas ideias, a besta fera da conformação e pior, do ‘deboche’, embriagava meu coração. Esperanças sorvidas até a última gota. (Isso mesmo, para quem não sabe, a esperança está engarrafada por aí, a ser distribuída pelas ruas, a tentar matar a sede das pessoas. Temos sede de justiça, cultura, sabedoria e amizade, contudo, inebriamos nossos sentidos, e apenas tomamos esperança, acordando no outro dia com uma bela de uma ressaca.)

Há diversos tipos de ignorância, que no momento não estou a fim de descrever, a você, leitor solitário, basta saber que é a um dos tipos que me refiro. Muitas vezes essa ignorância não nasce com a pessoa, ela é adquirida como a uma joia, e, ferozmente guardada, ou seja, esse ser ignorante a agarra e não quer soltar de jeito nenhum.

Essa ignorância vejo assolar as pessoas. Pessoas ignorantes me passam a ideia de não-pessoas. Secam a doce ilusão da esperança, fazendo crer que o mundo foi povoado por pulhas, nas palavras do mestre Nelson, os mais puros canalhas.

Vagando por essas profundezas, mais do que simples licor para inebriar o espírito, ou ainda Caronte a guiar meu caminho, vejo que ainda podem existir verdadeiras esperanças, verdadeira sabedoria, advinda das mãos que eu julgara ignorantes.

A apoteose tomou conta de meu espírito. Até o presente momento ainda não encontrei substância mais poderosa para transcender os sentidos, e então compreendi as severidades de meu julgamento. Estava na Biblioteca, rodeado de diversos livros, de diversos conhecimentos, dos mais longínquos séculos. Com alguns deles em mãos, para suprir metas acadêmicas, compreendo que há muito mais conhecimento e sabedoria, ressalve-se, humanas, a serem aprendidos, do que pode acatar nossa humilde inteligência.

Diante de tantos pensadores, sábios e até charlatões e picaretas, apenas pude tirar uma conclusão: não passo de um ignorante, diante das maravilhas realizadas pela mão humana. E essa é apenas um dos entretenimentos que ainda encontraremos em nosso mundo.

Os livros guardam o que há de melhor nos homens, são a verdadeira redenção de nossa espécie.

A segunda apoteose percebi no teatro. Fui ver uma peça, escrita por Brecht no início do século passado. Tratava de uma pessoa boa, rodeada de pessoas ruins, e tal pessoa justificava a existência de todas as outras, afinal, como se pode exigir bondade dos que passam fome?

Que homem poderia exigir algo além da ignorância de seus pares? Difícil encontrar algum ser que possa se diferenciar dos outros, quase negar sua natureza. A ignorância faz parte do Homem, da humanidade. Ouso afirmar, que se há algo que se aproxima da essência, é essa praga enraizada, não sei se em nossa cultura ou em nossos corpos. Mas como poderíamos querer coisa melhor, se faltam alimentos para que se fartem nossas almas?

<< Translobo >>

Os Inimigos da Cultura

Trata-se de uma ideia. Uma ideia raramente é boa ou ruim, ela chega furtivamente, sem qualquer aviso, para em pouco tempo dominar e preencher toda sua mente.

Pouco a pouco, você se pega pensando nela mais do que pode controlar, e essa ideia acaba por se tornar mais importante que as ideias habituais. Grandes escritores já me avisaram do perigo que trazem as ideias, porem acredito que não se pode matá-las. A simples tentativa é crime contra a natureza do Universo.

Explico, homens matam outros homens, propositadamente, ou ainda acidentalmente, contudo, não devemos temer os assassinos, ainda mais aqueles que não são habituais. Na verdade, perigosos são aqueles que buscam assassinar as ideias. Quando matam homens, estes o fazem por suas ideias, o que os torna verdadeiros assassinos em série, pois as ideias não habitam um único homem.

Por tal razão temo pessoas que queimam livros. Os livros encerram em si ideias, e mais que isso, a vida de um homem, ou muitos homens. Muitas vezes destruir determinado livro pode ser pior que matar o homem que o escreveu, pois assim se destrói o trabalho de sua vida, ou ainda o trabalho de muitas vidas.

Assim quem queima livros, desrespeita o trabalho de um homem, que muitas vezes, para este, tem mais valor que sua vida, e mais, demonstra que não tem respeito pelo ser dessa pessoa. Há casos de livros que encerram personalidades inteiras. Esses carrascos cometem assassinos de imortais, e, portanto, diante de homens, terão um desprezo vil. Creio que não titubeariam em ceifar milhares de vidas humanas tão facilmente quanto queimam as páginas que encerram verdadeiras almas e mundos.

Assim, não me atrevo a tentar esquecer esta ideia que me atormenta. Certas pessoas são escolhidas para receber das musas, da ciência, ou seja lá do que for, certas ideias, ou ainda historias e inovações. Portanto, tentar sufocar uma ideia, assim em seu nascedouro pode significar o aborto de algo necessário, de algo que pode transformar pessoas.

Se você abortar uma ideia poderá privar uma pessoa da redenção, uma história de seu corpo, enfim, tenha certeza que cometerá um sacrilégio contra a cultura humana.

Infelizmente talvez esteja sendo muito pretensioso em relação a esta ideia que me habita, pois creio que seja daquelas banais, ordinárias. Ainda estas devem permanecer, e, caros leitores, com vocês compartilho caso seja de alguma serventia. Pois para mim, apenas sussurra, quase em tom de zombaria.

Ainda não está completamente formada, e somente neste momento a transcrevo em palavras, creio que seja uma fome, mas uma fome que não cessa com o alimentar do corpo, e a alma já está fatigada deste alimento vil que encontra, de modo que precisamos de novas formas de nos saciar.

Já foi. Quem sabe isso ainda gere uma epopeia. Pelo menos agora que cumpri minha função (por enquanto) posso dormir tranquilo.

§ Gladius

Fear Of The Dark

O medo é algo que me intriga profundamente. Creio que este foi enfiado em nossas entranhas, no âmago de nossos instintos. É nosso elo mais forte e vivo com nossa natureza animal.

Algumas vezes basta observar aquele pânico irracional, irreal que algumas pessoas desenvolvem por algumas coisas, inofensivas. (Concedo aqui um pouco, até potencialmente perigosas em algumas circunstâncias, mas há situações que geram horror antes mesmo de qualquer perigo concreto.)

Diria que algo tão natural, tão humano, tão animal, é muito mais antiga que nossa humilde espécie, que apenas engatinha nas veredas deste imenso latifúndio. TODOS os Homens têm medo do escuro.

Basta retirar algumas de nossas quimeras e ilusões, que as pessoas se lembram que existe algo aí fora para se temer. Existe algo à nossa espreita nas trevas, esperando que a lenha de nossa luz se apague. Basta que falhe nossa humilde centelha, como naquele dia em que ficamos sem energia elétrica, para que as pessoas fiquem mais atemorizadas.

Esse medo intrínseco, talvez tenha sido imprescindível para tornar alertas nossos sentidos, e ágeis nossos reflexos, para assim, garantir a dinastia das pedras, permitindo que o DNA de nossos ancestrais se perpetuasse.

O custo da manutenção de nossa espécie foi alto. As pessoas temem-se reciprocamente, e o medo as impede de se aproximarem, pois os predadores estão à sua espreita. Basta um pouco de segurança para que o sentimento de terror seja completo.

Pavorosa é nossa civilização, o custo para manter nossas vidas, ironicamente, foi a vida em sua essência. Para manter a vida, foi necessário escondê-la em um buraco tão fundo e tão escuro, que esta perdeu o sentido, a graça, e até mesmo o nome, transfigurando-se no simples sobreviver.

Pequenos Homens, temam, acima de tudo seus medos, que alimentam-se de suas vidas. Protegem da violência arrebatadora, mas dilaceram-na, pedaço por pedaço, naco por naco, até que apenas sobrem seres assustados, medonhos, simulacros, sombra do que poderíamos ter sido.

Quando estiver só, em um local escuro, saiba que à sua espreita, naquelas sombras tenebrosas, te observa sua morte, esperando apenas um vacilo para com suas presas sangrentas cravar tua carne suculenta.

Não tema, apenas a respeite, pois cedo ou tarde, cederá a seus encantos.

O Lobo.

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