Não há maior pânico que aquele causado pela mais incisiva das perguntas :
Quem é você?
Há muitos, a primeira coisa que ocorre é um nome. Um nome e uma imagem no espelho, ou se preferir um pequeno amontado de carne
Alguns incautos rapidamente responderiam que são advogados, engenheiros, técnicos ou músicos. Infelizmente tais palavras remetem apenas a um ofício. Poucas pessoas podem ser reduzidas a seus ofícios, pois estes são lentes que revelam uma breve silhueta de sua alma, nada além de uma sombra.
Trabalhos podem ser uma imagem de sua personalidade, toda ela ou ainda a antítese da mesma. Mas você não é seu ofício, este é apenas algo que você faz, alguns com verdadeiro gosto.
Existem aqueles que se definem por seus gostos ou práticas fora de seus trabalhos. Mas incorrem nos mesmos erros dos primeiros, se definem por atividades.
Ações levam, quiçá, a uma compreensão melhor de sua personalidade que uma imagem, um nome, ou ainda um ofício. Talvez o ofício diga mais que as outras coisas anteriormente citadas, contudo, pare e medite um instante.
Já meditou? Espero que suas imagens mentais tenham atingido aqueles momentos em que está com seus colegas de trabalho, com diversos amigos de infância, com uma pessoa especial, e, finalmente, aquele momento em que está sozinho.
Raras pessoas conseguem manter-se constantes diante de tão variados ambientes. Como poderiam as ações de uma pessoa, que age de modos diferentes em diversos locais, definir uma personalidade.
Surge uma ideia para tal definição, e delimitação, talvez princípios, que norteiam a vida, ações e sentimentos de alguém. Diante dessa ideia, sugiro ponha-se só no silêncio. Há alguma disposição em seu espírito? Vontade, desejo? Quem é você na solidão, é uma boa companhia?
Te desafio, leitor incauto, a juntar os cacos espalhados pelas veredas deste mundo de sua história e de suas ações para mostrar o reflexo de sua personalidade e de seu ser, e, mesmo depois de uma vida de esforços, tenho certeza, apenas verei uma imagem deformada da realidade.
Voltarei ao tema principal, a minha personalidade. Algumas palavras que escrevo, não faço por vontade, desejo, ou ambição. Trata-se de verdadeira obrigação, determinada por forças estranhas e maiores que os homens.
Há no Universo um número restrito de ideias, assim como há de estrelas. Gigantesco esse número, mas mesmo assim, restrito. Essas ideias fundamentam a existência do Universo, e o explicam. As pessoas trazem dentro de si lentes, fragmentos que permitem que elas contemplem parte dessas antiguidades. No fim das contas, percebe-se que mesmo sob descrições diferentes, a ideia acaba sendo unívoca.
Assim, diante das parcas limitações que consigo encontrar para meu caráter, para minha pessoa, prefiro trazer aquela ideia que me foi incumbido transmitir a este mundo.
Observo-a, apalpo-a, e vejo que não se trata de uma ideia nova, mas sim de algo comum e corriqueiro. Releio minhas palavras, e sinto que realizo o plágio de escritores já esquecidos.
Faço compras, me alimento e debato, como outros já fizeram antes de mim, e, quando a imagem de meus traços, fenecerem, e a última linha por mim se apagar, outros tornarão a fazer, com certo sentimento de originalidade.
Sou um Homem. Sou todos os homens deste mundo. Sou todas as pessoas, porque sou uma das pessoas. Trago a ideia, e não consigo me diferenciar dela.
Quando escrevo e me descrevo, estou traçando um perfil da própria humanidade. A questão é que observo a ideia original, através do prisma vítreo que me foi concedido. Não importa a deformidade, se houvesse tempo suficiente, para agir das maneiras possíveis, seria impossível separar minha essência das outras existentes, ou que ainda existirão.
‘O um Homem’